quarta-feira, 25 de junho de 2014

Gesso - Anotando sem andar, temporariamente

Como muitas pessoas já estão sabendo, tem uma semana que eu estou com o pé engessado. Peço que me desculpem aqueles que não sabem como eu consegui essa proeza mas eu não vou entrar em detalhes contar a história de novo. Até porque é uma história bem ridícula, muito a minha cara.
O que eu quero contar é como esse gesso me fez pensar em algumas coisas.
Isso de ficar com a mobilidade reduzida me colocou numa situação muito peculiar, muito distante do que eu vivo todos os dias. Tudo bem que milhões de pessoas passam por isso todos os dias mundo à fora, mas, no meu caso, eu comecei a ver como um simples gesso bagunçou minha vida. Enquanto estiver com essa botinha branca nada elegante eu não posso nada. Tá, nada é exagero. Não posso muita coisa. Eu não ando direito, não posso descer ou subir escadas, mesmo me apoiando na perna boa não consigo ficar em pé por muito tempo. Toda minha capacidade de locomoção foi reduzida a pulinhos estilo Saci e a o que as muletas podem fazer por mim. Ou seja, se estourar o apocalipse zumbi, ferrou pra mim. E pense no quão desagradável pode ser a experiência de tomar banho sentada e com um saco plástico enrolado na perna, fazendo um esforço enorme para alcançar um shampoo. 
Ai alguém diz que milhões de pessoas com deficiências físicas ou mobilidade reduzida passam por situações muito mais complicadas todos os dias, muitos a vida toda. Bom, é exatamente ai que eu quero chegar. Nós que nos julgamos independentes e totalmente capazes de fazer tudo o que quisermos, ir e vir sem qualquer limitação física não temos ideia do quanto essa independência é frágil. Não precisa de muito para que voltemos a ter 2 anos de idade.
Aqui em casa estou dependendo da minha mãe, mesmo eu já conseguindo me virar com algumas coisas. Dona Vina é uma santa, uma criatura divina, sem trocadilhos. Só que é um saco ficar gritando "manhê!" aos 35 anos de idade, ainda mais quando você se orgulha de ser capaz de se virar desde criança enquanto seu irmão de 29 anos ainda não prepara a própria comida.
Mas o que tem pesado muito é não ter como ir a lugar algum. Eu tenho as muletas, mas eu não vou muito longe com elas. Tive que desmarcar vários compromissos e eu nem vou falar do kung fu que está fazendo a maior falta. Mesmo estando conectada com o mundo lá fora pelo celular, internet, rádio e TV, tenho sentido o isolamento. E tenho que me sentir sortuda por ter um TCC para escrever e pilhas de livros e HQ’s acumulados porque, assim, posso preencher meu tempo livre.
Tudo isso que estou colocando aqui pode parecer uma mega baboseira, uma choradeira inútil, afinal, como eu disse no começo, pessoas passam por isso todos os dias no mundo todo. Qual a novidade, afinal? Bem, acho que me dei conta de que a vida é muito instável, de que no fim das contas eu sou muito dependente. Essa independência que vamos adquirindo gradualmente enquanto crescemos é muito relativa e ela pode ser tirada de nós, ainda que parcialmente, por um metatarso fraturado.
Ai vem uma série de outras questões. E se tivesse sido uma fratura mais séria? E se eu fosse mais velha? E se eu não tivesse quem me ajudasse? E se eu fosse obrigada a sair de casa e usar transporte público? O mundo está preparado para pessoas dependentes, com necessidades? Estamos prontos para ser essas pessoas? Afinal, nós podemos nos tornar essas pessoas. Ai fico pensando em quem tem que encarar situações como essa de longo prazo ou até mesmo permanentes. É realmente necessária muita força de vontade, muita garra para não deprimir, não se deixar abater.
Provavelmente, em um mês eu vou estar retomando minhas atividades, andando por ai, voltando a treinar. Até lá vou “curtindo” as férias forçadas e limitadas, 
tentando aprender umas coisinhas com esse gesso.

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